Quando penso em Juventude e Europa a primeira coisa que me vem à cabeça é o programa Erasmus. Assim, vou tentar responder a três perguntas comuns sobre o programa Erasmus.
- Como foi o meu Erasmus?
- De que forma é que o programa Erasmus alterou a minha vida?
- O facto de ter feito Erasmus fez-me sentir mais europeu?
- Tive três experiências marcantes na minha vida, fazer Erasmus na Grécia, fazer a tese de Mestrado na Suécia e ir aprender alemão na Alemanha. O meu irmão já tinha feito Erasmus na Bélgica em Leuven e recomendou-me fazer também. Mais do que motivado e incentivado candidatei-me, ganhei uma bolsa e aterrei na Grécia no dia 27 de Setembro de 2010 com mais 3 colegas do meu curso de Engenharia Biomédica da FCT-UNL. Passados uns dias a passear e visitar Atenas, lá nos dirigimos à nossa cidade de acolhimento, Patras e, a partir desse momento deixámos de ser turistas e apercebemo-nos de uma forte realidade. Apesar de ser um país do sul da Europa, estávamos num país completamente diferente do nosso. Muitas vezes perguntam-me: Porquê a Grécia? Para mim a resposta é simples. Não conhecia ninguém que alguma vez lá tivesse feito Erasmus, havia uma baixa probabilidade de conhecer mais portugueses e era longe de casa. Não me levem a mal, mas na altura achei, e continuo a achar, que nestas oportunidades é mais interessante conhecer e conviver a tempo inteiro com estrangeiros.
Quando perguntei a colegas meus, pouco antes de partir para a Grécia, se tinham gostado de fazer Erasmus, responderam-me “Ou se gosta, ou se detesta. Não há meio termo”. E só depois de ter vindo da Grécia é que compreendi esta resposta. Partir para a aventura e fazer Erasmus não é para todos. Ou temos a capacidade interna de digerir estas diferenças e adaptar-nos à nova realidade, ou não o fazemos e não conseguimos apreciar onde estamos, nem quem nos rodeia. Felizmente, na altura, pudemos contar com a interajuda de mais uns 50 alunos de Erasmus e mais uns tantos alunos gregos que se sentiam da mesma forma
E é este, na minha opinião, o ponto fulcral da experiência de um programa de mobilidade como o Erasmus. Conhecer pessoas dos 4 cantos da Europa (e até fora dela), a partilhar experiências e primeiras impressões com todos eles. Começamos a desenvolver e a fortalecer amizades, à medida que alguns estereótipos se vão confirmando e outros dissipando e, por entre um misto de inglês, português e linguagem gestual começamos a tratar os novos amigos como família. Com esta nova família tive a oportunidade de tentar aprender uma nova língua e o alfabeto grego (que muito usava nas aulas de matemática), conhecer a cultura, subir ao Pártenon em Atenas e ir visitar o local onde se realizaram os primeiros jogos olímpicos em Olympia. Fazer ski no inverno e visitar as ilhas no verão. Provar a gastronomia e trazer um pouco dela para casa. E claro, à boa maneira portuguesa ir ver um Derby no estádio OAKA Atenas.
Se fui para Atenas com um sorriso na cara, saí de lá a chorar. Não me esquecerei dos momentos passados juntos, seja nas aulas, na praia ou a conhecer o país que me acolheu. Como se diz em bom Português “Estes já ninguém mos tira”.
Felizmente o sorriso volta sempre que tenho a oportunidade de ver um desses amigos que estão espalhados pelo Velho Continente. Fico feliz por, hoje em dia, o contacto com eles ser bem mais fácil graças às novas tecnologias, mas por outro lado fico seriamente triste ou até mesmo algo enraivecido quando alguém tenta reduzir o Erasmus (ou a sua experiência) a uma mera festa. Quem vive esse Erasmus, vive-o a uns 10% e na minha opinião está a desperdiçar uma oportunidade.
- Na Grécia vi e presenciei coisas indescritíveis num país que posso apenas descrever como sendo “Portugal com esteroides”. Vi o que se ia passar em Portugal, quase como uma bola de cristal com seis meses de antecedência, mesmo quando o então primeiro-ministro se esforçava por aprovar PECs enquanto dizia que estava tudo bem. Tive também o meu primeiro contacto real com juventudes políticas, com opiniões políticas diametralmente opostas às minhas.
Quando trancavam as portas dos pavilhões para se manifestarem contra os cortes da Troika, deixavam diversos alunos que queriam ter aulas, desamparados. Exigiam que cada aluno continuasse a recebesse grátis, de um estado falido, um livro por cada cadeira (que não era aberto), quando não compreendiam o conceito de edifícios chamados de “Biblioteca”. Cheguei posteriormente a descobrir que muitos desses livros eram queimados no final do ano, à boa maneira nacional-socialistas. Para mim tornou-se claro ver que aqueles que parecem que mais lutam por “direitos”, na realidade são abertamente contra diversos direitos que temos como garantidos, como o nosso direito de livre mobilidade e contra a nossa livre escolha de acesso à educação. Já era simpatizante de longa data, mas prometi a mim mesmo estar mais ativo na política e fazer-me militante do PSD quando regressasse a Portugal.
Como gostei imenso da experiência na Grécia, ainda antes de acabar o meu Erasmus, já estava a falar com os meus professores tanto na Grécia como em Portugal para ver se podia fazer a tese de mestrado fora de Portugal. Desta vez escolhi Estocolmo e após muita burocracia Grega, Portuguesa e Sueca tive a oportunidade de passar o último semestre do meu mestrado a fazer a tese no Hospital Universitário Instituto Karolinksa, que é o instituto que atribui o nobel da Medicina. Se na Grécia encontrei um país mergulhado em caos, na Suécia encontrei um país a funcionar quase como um relógio.
Terminada e apresentada a minha tese de mestrado em Outubro 2012, estando Portugal no pico da crise não pensei duas vezes e, ao contrário de uma “geração à rasca” que se queixava do incentivo migratório de Passos Coelho, fui para a Alemanha aprender a falar Alemão e procurar emprego. Ver os restos do muro de Berlim ao vivo causou uma impressão gigante e fiquei com a sensação que temos um dever sagrado para com o próximo de não deixarmos outra aberração dessas existir. Como disse a Margarida Balseiro Lopes, a liberdade não é um direito adquirido e é preciso lutar por ela todos os dias, pois de um dia para o outro, esfuma-se. Por falar em liberdade, não encontrei emprego, mas encontrei a minha namorada, com quem me vou casar no próximo ano, por isso acho que sim, que o programa Erasmus alterou bastante a minha vida.
Brincadeiras à parte saí da zona de conforto e aprendi a ser independente, a planear o dia e as semanas seguintes. Não só fiquei com um inglês ainda mais fluente como ganhei uma capacidade de adaptação ao meio circundante. Aprendi algumas frases noutras línguas e conheci tradições e costumes de outros países o que me ajuda a “quebrar o gelo” em diversas situações.
O mais engraçado de tudo, é que mesmo sem ter tido uma experiência profissional, ganhei um “à-vontade” gigantesco em falar com pessoas, independentemente da nacionalidade, o que sem dúvida contribuiu para o sucesso do meu primeiro emprego na sala de mercados do Banif. Entretanto já mudei de emprego 3 vezes, muito à custa de estas experiências e das softskills adquiridas. Estou de momento a trabalhar para a SAP onde estas softskills são apreciadas tanto pelos meus colegas, como pelos meus clientes (maioritariamente europeus).
- Se me sinto mais ou menos Europeu? É uma pergunta engraçada. Sou meio espanhol, vou casar com uma polaca. A mulher do meu irmão é meio britânica. A irmã da minha namorada está casada com um alemão, tendo adquirido nacionalidade alemã e agora quer mudar-se para Portugal. Acho que mais Europeu do que isto é complicado, mas sim, pude compreender em primeira mão que na realidade, além da língua e alguns hábitos e costumes, não somos assim tão diferentes e queremos quase todos o mesmo. Liberdade, Fraternidade, Igualdade e Paz.
Finalizando, posso dizer que aquele ano que passei na Grécia e as sucessivas experiências pela Europa (tanto a nível pessoal como profissional) moldaram-me e sou o que sou graças a elas. Os velhos do restelo dizem “a União Europeia não é perfeita”. Tem, sem dúvida, muitos defeitos. No entanto estamos bem melhores, a viver com esses defeitos do que sem eles e devemos lutar todos os dias para que esses defeitos melhorem. A melhor maneira de começar a melhorar a Europa? Sem dúvida conhecê-la e quem nela vive a fazer Erasmus!















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