Neste momento ninguém é indiferente à polémica criada em torno do programa SuperNanny. Ou, se nos basearmos no seu objectivo, SuperNada.
Recentemente saiu a público a noticia da decisão do Ministério Público em ordenar que a SIC cancelasse a emissão do programa. Foi, talvez, a decisão mais acertada que o Ministério Publico tomou recentemente no que diz respeito a direitos das crianças, que conheçamos.
O programa em si foi alvo de opinião profissional mesmo antes de ser emitido. Pedido um parecer à Ordem dos Psicólogos este revelou-se negativo. Alegadamente, um “não” foi também a resposta de uma IPSS ao pedido da produtora para divulgar o programa e referenciar utentes. Um exemplo notório de que habitamos um país onde o espetáculo e desdém são fulcrais. A ética, o profissionalismo e a segurança não. Um exemplo onde o respeito pela opinião profissional pouco conta quando se envolvem práticas que se querem responsáveis.
Importa referir aqui o que está realmente em discussão: não é incorreto uma criança participar num programa, se este zelar pelo respeito ao jovem. Não é incorreto os pais pedirem ajuda para melhorem ou intervir-se na melhoria do bem-estar familiar. É sim, gravoso, existir uma exposição pública, intrusiva e danosa na dinâmica familiar. As crianças, mesmo não podendo juridicamente consentir, têm desejos próprios. Têm, sobretudo, direito à dignidade e à privacidade.
Criar um seio familiar harmonioso e coeso não pode, nem deve, ser feito aos olhos de todos. Os desafios da parentalidade devem ser sempre exercidos tendo em conta a privacidade, bem-estar e segurança das crianças.
Educar não é forçar, não é expor e muito menos é permitir que todos vejam os movimentos da família. Tão importante quanto isso é o importantíssimo valor da privacidade durante intervenções com crianças, jovens ou adultos. O trabalho de quem intervém deve pois respeitar o consentimento informado e a dignidade de cada um.
Por outras palavras, não nos podemos permitir afirmar que iremos realizar uma intervenção, seja com quem for, e realizá-la aos olhos do mundo, dando espaço a que um país inteiro acompanhe o processo.
Um único aspeto positivo trazido pelo programa foi ter-nos posto a debater intensamente os direitos das crianças, a legitimidade ou ética de algumas intervenções e a necessidade de educar educadores. Verdade é, que as nossas sociedades tornaram-se obcecadas com a imagem, com o imediato e com a virtualização dos laços familiares e sociais, esquecendo-se que em matérias de relacionamento, devemos prezar mais o contato físico que o digital.
O programa faz-nos pensar na importância de alertar os pais para formas de educação, levando-os a repensar os seus modelos de educação. Tarefa difícil mas não impossível.
Mais, leva-nos a pensar se queremos que esta geração, que começa a iniciar-se na parentalidade, seja disciplinadora pela opressão, humilhação ou força; ou se vai preferir educar com respeito pelas características da criança, da sua privacidade e da sua responsabilização e noção do que são as consequências do seu comportamento.
Cabe-nos então enquanto juventude e atores políticos, pugnar pelo respeito pelo outro; por criar condições legais e técnicas que não permitam que isto se repita; sobretudo, sempre acima de qualquer coisa: consciencializar e não evangelizar.







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