Somos um Estado falhado porque não somos capazes de defender a vida dos cidadãos.
Nunca em Portugal morreu tanta gente em incêndios como neste ano. A tragedia humana, natural, ambiental e social é sem precedentes. E no entanto, as consequências políticas, criminais e legislativas parecem ser desproporcionalmente reduzidas.
Há anos que Portugal vive com uma aparente (e assustadora) naturalidade a existência de fogos no verão. Já Ricardo Araújo Pereira dizia que todos os anos no Verão somos surpreendidos com os incêndios e no inverno com as cheias. No final da época de calamidades fazem-se balanços e reflete-se nos mesmos problemas sem qualquer solução de fundo. Alguns atiram as culpas para as condições naturais, o calor e os relâmpagos, como se não existissem condições semelhantes desde sempre na nossa história (tem sido piores com o aquecimento global sem dúvida mas ainda assim não surpreendem) e como se não houvesse paralelo noutros países europeus. Outros, um pouco mais realistas, falam da limpeza de matas, da desordem dos terrenos especialmente no norte interior. Terras sem dono, donos sem dinheiro ou sem interesse em mandar limpar as matas e excesso de eucaliptos nunca ajudaram na problemática dos incêndios. No entanto, com 35, 40, 45 graus as árvores não entram em combustão espontânea nem Portugal tem uma taxa de pirómanos acima da média. Existe talvez alguma falta de informação que que leva à realização de pequenas queimadas ou à utilização de fogo-de-artifício em festas de aldeia sem as devidas condições de segurança. Todos estes argumentos acrescentam ao problema mas não o explicam. Nada explica o desaparecimento de mais de 100 vidas humanas insubstituíveis, incontáveis danos ambientais e o desaparecimento de hectares e hectares de floresta e até pinhal de Leiria, com 700 anos, pelo menos em teoria bem cuidado e protegido, constituído por pinheiros e não por eucaliptos, o inimigo número 1 do momento.
A realidade dura e inconveniente é a de que os incêndios são uma indústria. Todos os anos há uma indústria a alimentar, desde madeireiros a vendedores de material de combate a incêndios, empresas com aviões especializados, grandes empresas que engordam os lucros ao comprar madeira queimada, indústrias de celulose, etc. Até de empresários a quem dá jeito alterar planos municipais e só o conseguem caso um incêndio elimine as zonas de florestas protegidas. Como em tudo, há profissionais éticos que não devem sofrer com o estigma. Mas a indústria do lucro provenientes dos incêndios tem de acabar para que estes atinjam uma dimensão que, ainda que sempre catastrófica, seja normal para a nossa geografia – e sem mortos a lamentar.
Não vamos ser injustos. Por menos que me agrade o que a geringonça está a fazer ao futuro do nosso país, os incêndios não são culpa direta de António Costa, Catarina Martins e Jerónimo de Sousa (adoro incluí-los e não os deixar demitir das suas responsabilidades enquanto parte deste governo. Já chega de um pé de cada lado da barricada, não? Ser oposição para as notícias que vos parecem más e ser governo para anunciar as que consideram boas até dá jeito mas é um bocado… infantil).
São décadas de más políticas florestais e de desertificação, desleixo e falta de educação sobre prevenção de incêndios, é um facto. Mas a dimensão da catástrofe este ano e a perda de vida humana no entanto podiam e deviam ter sido prevenidas e o atual governo tem responsabilidade. Mais uma vez houve estradas que não foram fechadas atempadamente e mais uma vez se repetiram os mesmos erros de Pedrógão Grande. E não, senhora ex-Ministra da Administração Interna, não foram os portugueses que se portaram mal. É a nossa classe governante, nomeadamente a atual, que tem de agir “em conformidade” com as suas obrigações políticas e morais e gerir devidamente as situações de incêndio, assumir responsabilidades quando não o faz e terminar de vez com o mercado negro dos incêndios. Relativamente à senhora mencionada, temos de deixar (uma vez mais) de ser infantis: se estes incêndios fossem numa governação PSD, já tinha sido exigida a cabeça do ministro da administração interna, do primeiro-ministro e de todos os pais fundadores. O senhor primeiro-ministro foi mais um dos adultos a negar as suas responsabilidades e a não querer assumir as más notícias. Disto, estamos nós já cheios. Não culpo a ex-ministra e o primeiro-ministro pelo número de fogos nem creio que os portugueses lhes atribuam essas culpas. Culpo-os sim pelas opções políticas que tomaram, pela falta de experiência que revelaram, pelo caos instalado na Proteção Civil, pelas novas nomeações em cima da época de incêndios e acima de tudo culpo-os, bem como ao secretário de estado, pelas declarações absolutamente arrogantes e cheias de uma soberba de quem não falhou nada na vida nem acha que vá alguma vez falhar, e de um absoluto mau gosto, com que nos brincaram. Valham-nos alguns comentadores televisivos, políticos e um Presidente da República com sentimentos e que neste caso mostraram imediatamente a maturidade necessária para apoiar os portugueses.
Do ponto de vista legislativo, executivo e criminal, tem de se endurecer o enquadramento para a punição de fogo posto e chegar a uma alternativa dissuasora do lucro pela venda de madeira queimada, contratação de horas de aviões de combate a incêndios, alterações de planos municipais, incentivos à reconversão de floresta de eucalipto para outras árvores mais resistentes, entre tantas outras coisas que parecem ser tão lógicas para tanta gente especialista por estes dias. Ouvia dizer que há 30 anos se sabe que o fim da agricultura iria ter este desfecho. Pois mude-se, juntem-se pastas e repense-se a sério o nosso interior.
E no fundo resta também aos nossos deputados e justiça desmantelarem a oligarquia dos incêndios. Uma última palavra aos nossos jornalistas. Tendo em conta a sua responsabilidade enorme, podiam e deviam ter tido uma voz ativa e acutilante nestes assuntos. Infelizmente, para alguns profissionais vende mais e incomoda menos os interesses instalados que se façam diretos ao lado de cadáveres carbonizados ou de familiares traumatizados do que investigar a fundo quem de facto ganha com os incêndios.
Chega. Em Dezembro seremos surpreendidos com as cheias, como dizia Ricardo Araújo Pereira? O que se passa connosco?















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