Ao longo de vários meses, as eleições em França lançaram a dúvida acerca da sustentabilidade do projeto europeu. Nada de novo, não se pode deixar de frisar que já existiam pressões internas e externas a abanar o projeto europeu, desde nacionalismos emergentes noutros países (Áustria, Países Baixos, Reino Unido, na sua versão própria, entre outros), passando pela crise económica que afetou e afeta alguns dos países da nossa construção europeia e terminando no tema dos refugiados.
Na altura em que se celebra a Europa, não posso deixar de refletir em quem somos nós, a União Europeia, e o que queremos ser? Como ultrapassamos as fragilidades que têm sensibilizado a nossa (ainda frágil) construção e o que podemos fazer?
Acima de tudo, para mim, a União Europeia é um projeto de paz e de desenvolvimento social e económico. Sou acérrima europeísta e não me imagino num mundo no qual Portugal gravite entre países do Ocidente/Oriente, Norte/Sul, ou qualquer dicotomia daquelas que sempre dividiu o mundo. Sou por Portugal, inserido numa União Europeia forte, justa e solidária. Mas não deixo de pensar que a União Europeia que temos não é ainda a União Europeia que quero.
Quando confrontados com quem somos, a verdade é que a maioria de nós (ainda) não é europeu. Não é possível forçar tal sentimento de pertença, ele terá de partir de cada um de nós, europeus, ao encararmos o projeto europeu como nosso. Em momentos de crise, económica ou de outra natureza, sempre os seres humanos se uniram com aqueles que são semelhantes a si. Inicialmente, em torno da sua tribo. Mais tarde, com os seus compatriotas. Neste momento, não se pode considerar que em momentos de crise a Europa se una como um, pois não somos (ainda) um. Nascem assim as tensões nacionalistas que pressionam pela saída da União Europeia, alegando que isso irá resolver todos os problemas de todos os países. Não tenho dúvidas de que Portugal ficaria mais fraco caso abandonasse a União Europeia e o Euro. Mas também não tenho dúvidas de que a União Europeia ficava mais fraca se Portugal saísse da União Europeia, pois a sua construção faz-se de todos os estados membros, com toda a diversidade que existe, com todas as dificuldades e características sociais dos seus povos.
Os resultados das eleições francesas provam que a maioria de França, apesar do Charlie Hebdo e do Bataclan, das vagas de imigração e crispação económica acredita no projeto europeu, além de sinalizar uma mudança de paradigma político. Acho que é momento de refletirmos no significado desta votação do ponto de vista político e em termos do futuro da União Europeia. Enquanto partido pró-União Europeia, é altura de pensarmos em como incutir confiança em termos do projeto Europeu.
Para mim, esse objetivo não passa por forçar uma solução federalista. Não partilho da opinião de que neste momento haja apenas dois caminhos, federalismo ou fim eminente da União. O futuro imediato para mim passa, sem dúvida, por uma crescente transparência sobre a estratégia e as decisões tomadas pelos organismos que compõem a União Europeia, com um peso cada vez maior no Parlamento Europeu, organismo que efetivamente garante a representatividade dos povos, e sobre os mecanismos de governação que acabam por influenciar até os aspetos mais insignificantes do nosso dia-a-dia. Em termos de regulação, existem áreas nas quais há necessidade de legislar (ex.: economia digital e prestação de serviços pós-fronteiriços) mas sou da opinião de que vivemos numa época em que a legislação sobre todas as temáticas esmaga mesmo as melhores tentativas de entendimento, pelo que este deve ser um esforço orientado à necessidade absoluta.
Em termos económicos, temos de ser capazes de discutir novos paradigmas com a solidariedade e seriedade que marcaram a construção deste projeto, sem “bons” e “maus” alunos, mas também sem excesso de complacência. Acredito no projeto do Euro porque representa, de longe, mais vantagens do que desvantagens. No entanto, o objetivo de solidariedade deve encontrar um equilíbrio face ao rigor e exigência necessários para que um acordo económico seja sustentável e não gere desconforto.
Neste momento, a estabilidade da União Europeia passa também por chegar a uma solução de compromisso para a crise dos refugiados, uma solução que equilibre o esforço para todos os estados membros e que garanta a segurança de todos aqueles que viram a sua vida posta em perigo nos seus países de origem. Sendo a União Europeia uma zona de paz de forma transversal, não havendo perigos associados em nenhum país, deve haver uma distribuição equitativa dos migrantes, que garanta também a sua melhor integração nas comunidades.
Na semana em que se celebra o dia da Europa, aproveitemos todos para refletir no futuro deste incrível projeto de paz e desenvolvimento social – e voltemos à sua génese para nos inspirar no caminho futuro.







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